O futuro da comida plant-based pode ser muito mais simples: feijão, lentilha, tofu e comida de verdade

Consumidores britânicos estão comprando mais feijão, lentilha, tofu e tempeh enquanto reduzem a compra de produtos vegetais desenvolvidos para imitar carne. Dados do primeiro semestre de 2026 sugerem uma mudança interessante no mercado plant-based: em vez de procurar necessariamente um hambúrguer que sangre como carne ou uma linguiça vegetal que tente enganar o cérebro, parte do público parece estar redescobrindo algo muito menos tecnológico — comida.

E talvez isso seja uma excelente notícia.

Segundo dados da NielsenIQ analisados pela organização Madre Brava, as vendas em unidades de feijões, pulses — grupo que engloba leguminosas secas como lentilhas e ervilhas —, tofu e tempeh cresceram 7,3% no Reino Unido no primeiro semestre de 2026, em comparação com o mesmo período de 2025. Em valor, o crescimento foi de 10,1%. Enquanto isso, as alternativas vegetais desenvolvidas especificamente para imitar carne tiveram queda de 4,3% nas unidades vendidas.

É tentador resumir isso dizendo que os britânicos finalmente descobriram o feijão.

Nós, brasileiros, podemos tentar não rir.

O feijão está ficando gourmet. E isso talvez seja ótimo

Alguns números são particularmente curiosos.

As vendas de lentilhas secas cresceram 23%, enquanto as de butter beans — um tipo de feijão branco grande e amanteigado — vendidos em latas e potes cresceram impressionantes 30,3%. O crescimento não está acontecendo apenas entre produtos baratos: versões premium e orgânicas também ganharam espaço.

Tempeh merece um capítulo à parte. Na análise mais ampla divulgada pela Madre Brava, as vendas do alimento fermentado de soja cresceram 71,5%, embora partindo de uma base de consumo muito menor. O tofu avançou 7,2%.

Isso sugere algo mais complexo do que simplesmente “as pessoas estão tentando economizar”.

Elas podem estar aprendendo a cozinhar esses ingredientes.

E essa diferença é enorme.

Durante muitos anos, boa parte da indústria plant-based vendeu uma promessa muito específica:

você pode abandonar a carne sem abandonar a experiência de comer carne.

Nasceram hambúrgueres que tentavam reproduzir gordura, cor, textura, cheiro e até o aspecto de um hambúrguer bovino. Vieram nuggets, almôndegas, salsichas, bacon vegetal e dezenas de produtos desenvolvidos para ocupar exatamente o espaço deixado pela proteína animal.

Essa estratégia continua tendo seu público — e não há nada de errado com ela.

Mas talvez estejamos entrando em uma segunda fase.

A pergunta deixa de ser:

“Qual alimento vegetal parece mais com carne?”

E passa a ser:

“O que eu consigo fazer com uma lentilha?”

A resposta, felizmente, é: coisa demais.

Por que feijão e lentilha estão ganhando espaço?

O preço é uma parte importante da resposta.

Consumidores britânicos seguem pressionados pelo custo dos alimentos. A própria NielsenIQ observou em 2026 que famílias continuavam comprando com cautela em meio à inflação, enquanto produtos associados a proteína e fibra ganhavam espaço nas escolhas dos consumidores.

Lentilha, feijão e outras leguminosas encaixam perfeitamente nessa combinação.

São alimentos relativamente baratos, ricos em fibras, versáteis e fáceis de armazenar.

Mas existe outro elemento interessante: a percepção de comida de verdade.

A Madre Brava relaciona parte do movimento à preocupação crescente com alimentos ultraprocessados. Dentro da própria categoria plant-based, produtos baseados diretamente em tofu, leguminosas ou vegetais tiveram desempenho melhor do que algumas alternativas feitas para reproduzir carne utilizando proteínas vegetais altamente processadas.

Isso não significa que todo hambúrguer vegetal seja ruim ou que um produto seja automaticamente saudável apenas porque contém grão-de-bico.

Significa algo mais simples: o consumidor começou a olhar para a lista de ingredientes.

E isso muda o jogo.

Talvez o vegetariano não precise substituir carne nenhuma

Essa pode ser uma das ideias mais libertadoras para quem está começando no vegetarianismo.

Quando alguém pergunta:

“O que eu coloco no lugar da carne?”

Nossa primeira reação costuma ser procurar um equivalente.

Hambúrguer vegetal no lugar do hambúrguer.

Proteína vegetal desfiada no lugar do frango.

Almôndega vegetal no lugar da almôndega.

Só que muitas das melhores cozinhas vegetarianas do mundo nunca precisaram dessa lógica.

Um dal indiano não está tentando imitar carne.

Um chana masala, feito com grão-de-bico, também não.

O falafel não pede desculpas por ser grão-de-bico.

O homus definitivamente não está interessado em convencer você de que é patê de alguma coisa.

Uma boa mujadara, feita com arroz, lentilha e cebola caramelizada, existe porque lentilha é deliciosa — não porque alguém precisava inventar um substituto para um bife.

O mesmo vale para boa parte da comida brasileira.

Arroz, feijão, couve, mandioca, abóbora, quiabo, milho e dezenas de outros ingredientes já formavam refeições muito antes de alguém colocar a expressão plant-based numa embalagem.

Lentilha deixou de ser “comida sem graça”?

As redes sociais também parecem ter papel nessa mudança.

Receitas transformaram ingredientes tradicionalmente considerados simples em pratos visualmente atraentes e, muitas vezes, sofisticados. O Guardian, ao analisar o fenômeno britânico, destaca justamente o crescimento das receitas com leguminosas nas redes e a chegada de marcas que vendem versões premium desses produtos.

É uma mudança curiosa de status.

A lentilha que poderia ficar esquecida no fundo do armário agora aparece em:

  • curries;
  • saladas mornas;
  • hambúrgueres caseiros;
  • sopas;
  • ragus vegetarianos;
  • recheios de tacos;
  • almôndegas;
  • bowls;
  • pastas;
  • acompanhamentos para arroz;
  • pratos de inspiração indiana e árabe.

O ingrediente não mudou.

Nosso repertório mudou.

E tofu não precisa fingir que é frango

Talvez tofu seja o melhor exemplo dessa nova mentalidade.

Durante anos, muita gente conheceu o ingrediente por receitas intituladas coisas como “frango vegano de tofu”.

É uma batalha injusta.

Tofu é excelente quando tratamos tofu como tofu.

Pressionado para retirar excesso de água, marinado, grelhado até ganhar crosta, colocado num curry, coberto com molho picante ou combinado com gengibre, alho e gergelim, ele tem personalidade própria.

Tempeh segue a mesma lógica. É fermentado, firme, tem sabor mais pronunciado e aceita muito bem marinadas e preparos grelhados.

Talvez o problema nunca tenha sido esses ingredientes.

Talvez fosse apresentá-los sempre como uma versão incompleta de outra coisa.

Então os hambúrgueres vegetais estão acabando?

Não.

E os próprios números pedem cuidado antes de anunciar qualquer funeral.

O mercado britânico de alternativas à carne continua relevante, e diferentes levantamentos usam metodologias e definições distintas. Dados da Circana citados pelo Good Food Institute Europe, por exemplo, apontam queda de 9,4% no volume de carnes vegetais no Reino Unido em 2025, enquanto dados NielsenIQ usados em outra análise indicavam contração menor.

Além disso, a própria Madre Brava identificou crescimento em alguns produtos plant-based preparados com bases mais reconhecíveis de vegetais e leguminosas.

Portanto, não parece ser simplesmente uma rejeição ao plant-based.

Pode ser uma mudança dentro do próprio plant-based.

Menos:

“quero uma cópia perfeita de um hambúrguer.”

Mais:

“me dá alguma coisa gostosa que eu reconheça como comida.”

Isso também faz sentido no Brasil?

Aqui a história fica especialmente interessante.

Poucos países possuem uma base alimentar tão conveniente para essa tendência quanto o Brasil.

Temos feijão preto, carioca, branco, fradinho, jalo, vermelho.

Temos ervilha seca.

Temos lentilha.

Temos grão-de-bico amplamente disponível.

Temos milho, mandioca, arroz, abóbora, couve e uma quantidade quase obscena de legumes que podem entrar numa cozinha vegetariana sem exigir laboratório, suplemento culinário ou produto importado.

E ainda podemos roubar — no melhor sentido possível — ideias de outras cozinhas.

Lentilha vira dal indiano.

Grão-de-bico vira chana masala.

O mesmo grão-de-bico vira falafel árabe.

Feijão vira recheio de taco mexicano.

Berinjela vira babaganoush.

Couve-flor vira curry.

Cogumelo vira recheio, molho, espetinho ou acompanhamento.

Vegetarianismo fica muito mais divertido quando deixa de ser uma lista de proibições e começa a ser a descoberta de um repertório.

Perguntas frequentes sobre essa nova tendência plant-based

Feijão pode substituir carne?

Do ponto de vista culinário, feijão e outras leguminosas podem ocupar o espaço central de diversas refeições vegetarianas. Nutricionalmente, porém, alimentos não precisam ser tratados como substitutos perfeitamente equivalentes: uma dieta vegetariana equilibrada depende do conjunto da alimentação.

Lentilha tem proteína?

Sim. Lentilha é uma leguminosa que fornece proteínas, fibras, carboidratos e diferentes micronutrientes. Por isso aparece com frequência em dietas vegetarianas.

Tofu é ultraprocessado?

O tofu tradicional é produzido essencialmente a partir da coagulação da bebida de soja e não deve ser automaticamente colocado na mesma categoria de produtos vegetais formulados com longas listas de ingredientes. O grau de processamento depende do produto específico.

Tempeh e tofu são a mesma coisa?

Não. Os dois podem ser feitos de soja, mas o tempeh é fermentado e normalmente mantém os grãos unidos em um bloco firme. O tofu é produzido a partir da coagulação da bebida de soja e possui textura diferente.

Preciso comprar carne vegetal para ser vegetariano?

Não. Uma alimentação vegetariana pode ser construída com feijão, lentilha, grão-de-bico, ervilha, tofu, tempeh, cereais, verduras, frutas, legumes, sementes e, dependendo do tipo de vegetarianismo, ovos e laticínios.

Talvez a verdadeira revolução plant-based seja a mais óbvia

Durante anos, gastamos uma quantidade impressionante de tecnologia tentando convencer pessoas a comer plantas sem perceber que estavam comendo plantas.

Agora surge uma possibilidade bem menos cinematográfica:

talvez as pessoas simplesmente aprendam a gostar delas.

E isso transforma completamente a conversa.

Porque um hambúrguer vegetal pode render uma receita.

Uma lentilha rende cinquenta.

Você pode fazer sopa, curry, dal, hambúrguer, salada, bolinho, ensopado, ragu, recheio, arroz, marmita e jantar de terça-feira quando não há absolutamente nenhuma vontade de pensar.

Para um site chamado A Receita Vegetariana, é difícil imaginar tendência melhor.

Talvez a próxima grande fase do vegetarianismo não venha de um laboratório tentando criar a carne perfeita sem carne.

Talvez ela já esteja esperando há décadas dentro de um saco de feijão.